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29 de Maio de 2020
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    Coronavírus: os impactos da pandemia e do isolamento na saúde mental

    O isolamento social é fundamental para contenção da pandemia do coronavírus, segundo recomendações do Ministério da Saúde e de diversos órgãos e profissionais da área. A medida, somada à tendência ao pânico por conta do avanço da doença em todo mundo, tem repercutido na saúde mental da população, algo já notado nos consultórios.

    É o que afirma a psicanalista Cláudia Pretti Vasconcellos Pelegrini, vice-diretora das Relações Interdisciplinares do Instituto Brasileiro de Direito de Família - IBDFAM. Segundo ela, a pandemia nos lançou em um “território de horror”, enfrentado por cada um à sua maneira. “Não se trata apenas de medo frente a um objeto definido, como, por exemplo, a morte, e sim de um cenário que está para além de qualquer nomeação”, atenta.

    Ela explica que a base da constituição psíquica do ser humano está em sua inserção na linguagem e na relação com os outros. Portanto, o isolamento social tende a levar às mais diversas consequências na saúde mental, algo que a especialista já observa na realidade concreta. “Têm sido recorrentes as crises de ansiedade, pânico e episódios depressivos. Temos também aqueles que fazem um movimento denegatório, se alienando da realidade como um mecanismo de defesa.”

    “O equilíbrio psicológico é fundamental neste momento, ainda que estejamos aterrorizados com o que estamos vivendo. Buscar o equilíbrio, tentando elaborar possíveis respostas, é o caminho desejável, seja por recursos próprios ou ainda procurando ajuda profissional quando necessário”, avalia a psicanalista.

    Ambiente virtual e excesso de informações

    Diante da recomendação de isolamento, as redes sociais se mostraram a saída para muitos que desejam manter contato com amigos e familiares. Cláudia explica que o ambiente virtual pode contribuir para a socialização, mas não descarta a possibilidade de que acentuem o sofrimento mental. “Assim como o álcool pode ser um belo meio de socialização - quando as pessoas partilham uma taça de vinho ou uma cervejinha -, pode também ser devastador na vida do sujeito, impactando-a negativamente”, compara.

    “O mesmo acontece com as redes, que podem ser uma excelente saída em tempos de isolamento social, nos conectando aos entes queridos, nos permitindo exercer nossas funções de trabalho e estudos e, ainda, nos informando e nos fornecendo instrumentos para lidarmos com esse momento tão particular. Mas podem, também, ser fonte de enorme sofrimento, se forem mal utilizadas. O equilíbrio é sempre a palavra de ordem”, destaca.

    Segundo a psicanalista, o consumo excessivo de notícias - que se proliferam, neste contexto, muitas vezes sem embasamento ou devida checagem - tem sido uma reação comum frente ao estado de angústia em que a grande maioria se encontra. “Esse é um dos extremos de uma reação quase histérica. O polo oposto seria uma posição de indiferença alienada, que nega as evidências.”

    “A informação é essencial, pois nos fornece instrumentos que permitem nos posicionarmos de forma consciente. Podem nos dar alguns recursos simbólicos, permitindo uma leitura do mundo que nos cerca e de nossa inserção nele”, avalia a psicanalista.

    Por outro lado, ela diz que “ficar o dia todo em torno das notícias, sobretudo daquelas que nos apresentam de forma avassaladora os tempos sombrios em que nos encontramos, em vez de nos fornecer elementos simbólicos para fazermos o enfrentamento necessário, pode, sim, nos fazer crer que não temos saídas possíveis e, assim, produzir quadros de extremo mal-estar psíquico.”

    Atenção dispensada à pessoa idosa

    A psicanalista destaca que familiares devem ter cuidado redobrado com os mais velhos, principal grupo de risco na pandemia. É preciso garantir o isolamento sem que isso signifique abandoná-los, mesmo que afetivamente. “Antes do isolamento social imposto pelo coronavírus, o abandono de idosos já vinha sendo uma grande questão”, aponta Cláudia.

    Ela lembra que o “fantasma da morte”, presença já contínua para essa população, agora se encontra ainda mais real diante das notícias que não param de ser veiculadas, dando conta do alto índice de mortalidade entre os mais velhos. “Mais do que nunca, precisamos priorizar o afeto e nos presentificar, ainda que por meios virtuais”, propõe.

    “Poder dar um espaço de fala que permita a esses idosos se sentir minimamente amparados, fornecendo-lhes palavras que possam servir de alento em um momento de tanta angústia”, acrescenta. “Nem todos se relacionam intimamente com a tecnologia, portanto, um telefonema sem pressa, recheado de paciência, de escuta atenta, carinho e boa vontade pode ser de fundamental importância.”

    Como atravessar a quarentena com tranquilidade

    “Nossas rotinas viraram de cabeça para baixo, muitas certezas construídas ruíram em um só golpe”, observa Cláudia. Neste contexto, segundo ela, cabe a cada um entender os efeitos em suas vidas e, então, viabilizar saídas possíveis. A psicanalista estabelece medidas que, adaptadas às particularidades de cada um, podem ajudar a atravessar a quarentena com tranquilidade.

    É fundamental, de acordo com Cláudia, “estabelecermos uma rotina possível dentro da nova organização de estudos, trabalho ou mesmo de convivência familiar, bem como não deixar de lado os cuidados pessoais, pois são importantes para nosso humor e nossa autoestima”. “Não é porque estamos trabalhando em casa que podemos ficar de pijama, sem escovar os dentes, ou no meio de um ambiente muito bagunçado”, justifica.

    Além de evitar a busca desenfreada por notícias, deve-se fugir das batalhas familiares, que têm se acentuado. “As famílias nunca conviveram tanto tempo no mesmo ambiente como atualmente. O risco de que os conflitos aumentem é enorme, e isso já tem comparecido nos consultórios dos psicanalistas. No rol de queixas e de fontes de mal-estar, os conflitos familiares, a insegurança financeira e as incertezas com o futuro estão presentes em todas as faixas etárias.”

    “Precisamos estar atentos a tudo isso, para que, depois que passar, possamos continuar a vida com o que pudermos ter aprendido neste momento tão peculiar. Afinal, nada é definitivo. Que possamos ter a serenidade de Lulu Santos na canção Tempos Modernos, e ver a vida melhor no futuro”, assinala Cláudia.

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